Ana Moura reinventa o fado português

 
Eleito o melhor álbum de 2013, “Desfado”, da cantora portuguesa Ana Moura, consegue o que parecia impossível: acrescentar ao tradicional estilo lusitano uma pegada “pop”, o que, longe de comprometer sua qualidade, agrega-lhe um elemento novo e original
Público
Ana Moura reinventa o fado português
 
Ana Moura, uma das belas vozes e importantes fadistas do mundo
Rafael Teodoro
Conhecida pelo talento de seus romancistas e poetas, Portugal é um país igualmente rico na música. Seu fado é legado cultural dos mais relevantes no gênero popular. Estilo tipicamente urbano, remonta aos boêmios lisboetas do século 19, que cantavam suas tristezas e saudades acompanhados pelo violão e pela viola. Depois, com a aceitação paulatina das melodias fadistas nos salões aristocráticos, populariza-se entre a fidalguia portuguesa um estilo até então marginal. Já no século 20, após o surgimento das primeiras casas de Fado, dá-se a profissionalização dos artistas. Com isso, o estilo ganha fôlego novo: seus arranjos instrumentais ficam mais refinados; seus versos tornam-se mais elaborados. Graças especialmente à brilhante carreira internacional de Amália Rodrigues — para muitos, a maior fadista de todos os tempos —, o fado deixa sua condição de fenômeno local português, atingindo público em nível mundial.   

Apesar disso, o fado nunca usufruiu grande popularidade no Brasil. Posto que Portugal tenha contribuído decisivamente para a formação da sociedade brasileira, a legar inclusive o idioma português, o fado não goza em nosso País da mesma penetração popular que se nota relativamente a outros estilos musicais estrangeiros (o rock, o jazz, o pop, o rhythm and blues, a dance music). É sintomático perceber que, não raro, boa parte do público tem como única referência no fado Roberto Leal, o cantor português que, radicado no Brasil, obteve nos idos de 1970 relativo sucesso comercial, apresentando-se em programas populares da TV com canções como “Arrebita” e “A festa ainda pode ser bonita”. Esta última, por sinal, ouso dizer que tem sua melodia mais associada no Brasil à paródia “Vira-Vira” do finado grupo Mamonas Assassinas, sucesso radiofônico absoluto no ano de 1995, que propriamente à versão original.

É óbvio que esse contexto não impede o ouvinte brasileiro de conhecer o importante legado cultural que a música popular portuguesa pode proporcionar. Há muitos artistas grandiosos a dedicar-se ao fado, donos de obras maravilhosas. Entre as referências do passado, seria medida de suprema injustiça não citar Amália Rodrigues; entre as do presente, seria demonstração inequívoca de insensibilidade auditiva não mencionar o nome de Ana Moura.

Pois é justamente Ana Moura que quero destacar. Seu álbum “Desfado”, lançado em 2012, recentemente adquiriu grande notoriedade após o jornal inglês “The Sunday Times” tê-lo eleito o “melhor álbum de 2013”. Se a afirmação é exagerada do ponto de vista da crítica, visto que não se pode julgar a obra de um artista senão dentro do gênero a que ele pertence, torna-se musicalmente plausível à medida que se ouvem as 17 canções que compõem o álbum.

Com efeito, “Desfado”, como o próprio nome indica, propõe-se a revisitar a tradicional música portuguesa urbana, fundindo-a a uma linguagem, digamos assim, mais “pop”. A música que abre o disco é reveladora nesse sentido: “Desfado” é uma canção agitada, com a bateria destacada na cozinha; a letra é propositalmente disparatada, a brincar com as convenções do gênero:

“Quer o destino que eu não creia no destino
E o meu fado é nem ter fado nenhum
Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido
Senti-lo como ninguém, mas não ter sentido algum

Ai que tristeza, esta minha alegria
Ai que alegria, esta tão grande tristeza
Esperar que um dia eu não espere mais um dia
Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente

Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem
E alegre sentir-me bem
Só por eu andar tão triste

Ai se eu pudesse não cantar ‘ai se eu pudesse’
E lamentasse não ter mais nenhum lamento
Talvez ouvisse no silêncio que fizesse
Uma voz que fosse minha cantar alguém cá dentro

Ai que desgraça esta sorte que me assiste
Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada
Na incerteza que nada mais certo existe
Além da grande incerteza de não estar certa de nada”.


Já “A Case of You”, uma das melhores do disco, não esconde o desejo de transitar para o pop: Ana Moura homenageia uma das mais conhecidas canções de “Blue” (1971), o clássico álbum de folk-rock da canadense Joni Mitchell. Não fosse o som da viola portuguesa ao fundo, poder-se-ia identificá-la facilmente com uma cantora de R&B ou soul a protagonizar um bem-sucedido cover. Esse mesmo mood vai reproduzir-se adiante, na faixa “Thank You” (que lembra muitos momentos do excelente “My One and Only Thrill”, de Melody Gardot) e “Dream Of Fire”, quando a guitarra acompanha o tom jazzístico do piano elétrico tocado pelo consagrado Herbie Hancock.

Ana Moura dividindo o palco com Gilberto Gil, no Brasil, em 2011
Outro aspecto a se destacar nesse álbum é a poesia das letras. Ana Moura empresta sua voz a versos inspirados, como na faixa “Amor Afoito”, escrita por Nuno Figueiredo:

“Dou-te o meu amor
Sem qualquer condição, por ora,
Mas terás que provar que vales
Mais que o que já mostraste ser
Se me souberes cuidar,
Já sei teu destino,
Li ontem a sina,
A sorte nos rirá, amor
Se quiseres arriscar
Não temas a vida,
Amor, este fogo
Não devemos temer”.
Em “Havemos de Acordar”, temos outra das melhores faixas do álbum. Exemplo de sensibilidade do compositor Pedro da Silva Martins (Deolinda), a canção assinala oethos renovador do fado que norteia a direção artística de “Desfado”:

“Canto o fado pela noite dentro
Ele trabalha todo o dia fora
Corre tão veloz o tempo
e chega apressada a hora
Ele suspira, sonolento,
‘Ó meu amor, não vás embora’

Fecho os olhos pela noite fora
Ele dorme pela noite dentro
De manhã não se demora,
veste um casaco e sai correndo
E ouve a minha voz que implora
‘Ó meu amor fica mais tempo’

Eu hei-de inventar um fado
um fado novo, um fado
que me embale a voz
e me adormeça a cantar
Eu hei-de ir nesse fado
ao teu sonho, no meu sonho,
e, por fim, sós,
nele havemos de acordar

Vou sonhando pelo dia fora
Ele trabalha pelo dia dentro
Não sei o que faz agora
mas ele talvez nesse momento
entre por aquela porta
‘Ó meu amor, fica mais tempo
Canto o fado pela noite dentro
Ele trabalha todo o dia fora
Já o sinto nos meus dedos
como um eterno agora
Será esse o nosso tempo
‘Ó meu amor, não vás embora’

Eu hei-de inventar um fado
um fado novo, um fado
que me embale a voz
e me adormeça a cantar
Eu hei-de ir nesse fado
ao teu sonho, no meu sonho,
e, por fim, sós,
nele havemos de acordar”.


Todos esses elementos somam-se ao talento vocal indiscutível de Ana Moura, que sabe explorar seu belo timbre com elegância nas faixas, a primar por uma prosódia musical escorreita da língua portuguesa, sem descuidar da emoção soturna que a estética fadista reclama (a ouvida de “Fado Alado” é ilustrativa dessa perspectiva) e que Amália Rodrigues soube incorporar como ninguém.

Penso que “Desfado” está menos para o (des)fazimento ou para a (des)construção que para a (re)invenção do fado. Na sua proposta renovadora, o álbum de Ana Moura consegue o que parecia impossível: acrescentar ao tradicional estilo lusitano uma pegada “pop”, o que, longe de comprometer sua qualidade, agrega-lhe um elemento novo e original.

Se isso faz do quinto álbum de estúdio de Ana Moura, como quer o “The Sunday Times”, o melhor de 2013 no seu estilo, é difícil dizer, sobretudo porque não ouvi tudo que gostaria no período. No entanto, sinto-me seguro em afirmar que “Desfado” é um dos melhores álbuns de música popular portuguesa já lançados em muitos anos. Oxalá, então, ele receba a merecida acolhida do público brasileiro. Quem sabe assim ajude a popularizar no Brasil um estilo musical tão rico quanto o fado.

Rafael Teodoro é advogado e crítico de música e literatura.

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